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quarta-feira, 1 de julho de 2020

Paralaxe

Os sistemas de coordenadas são considerados relativamente ao centro da Terra. Porém, as medições são apenas possíveis à sua superfície. A aproximação do horizonte por um plano paralelo sobre o centro é apenas válida no caso de estrelas muito distantes. Alguns dos astros, a Lua em particular, estão suficientemente próximos da Terra para que o erro cometido na aproximação não seja negligenciável.
Seja A o ponto à superfície onde é realizada a medição, Z o zénite, C o centro, H o ponto onde a estrela cruza o horizonte à altura zero e I um ponto genérico onde a estrela se pode encontrar num outro instante. Como ZAI+IAC=π por se tratar de ângulos suplementares e
AIC+ICA+CAI=π
segue-se queAIC=ZAICAIO erro cometido por paralaxe é dado pelo ângulo AICDo mesmo modo,
AHC=ZAHCAH=π2CAH
De modo a simplificar a notação, denota-se por ζI e ζH os ângulos ZAI e ZAH respectivamente, isto é, as distâncias ao zénite das posições dadas por I e H medidas à superfície. Denota-se por σI e σH os ângulos de paralaxe AIC e AHCDa lei dos senos aplicada ao triângulo AIC obtém-se
sin(πζI)IC=sinσIAC
Do mesmo modo, também vale a identidade
sin(πζH)IC=sinσHAC
Segue-se daqui que
sinσHsinζH=sinσIsinζI
Como ζH=π/2, tem-se
sinσI=sinζIsinσH
Assim, sendo conhecida a paralaxe horizontal σH e a distância ao zénite ζI do astro medida à superfície, calcula-se o erro de paralaxe σI cometido. É interessante observar que, sendo R o raio da Terra e D a distância ao astro, se tem
sinσH=RD
Resta, portanto, medir o valor da paralaxe horizontal. Para o efeito, sejam realizadas medições da distância ao zénite de um mesmo astro no ponto I em duas localizações A e A situadas no mesmo meridiano afastados entre si de um ângulo de latitude igual a φ.

Denota-se por ζA e ζA as distâncias aos zénites Z e Z medidas nas posições A e A. Como  e a soma dos ângulos internos do quadrilátero ACAI é igual a 2π, segue que
AIA=ζA+ζAφ
Utilizando a notação ψ=AIA, tem-se, portanto, ψ=ζA+ζAφ obtido por medição. Por outro lado, sabe-se que ψ=σA+σA é igual à soma dos erros de paralaxe. A fórmula para a soma dos senos permite escrever
sinψ=sinσAcosσA+sinσAcosσA
que, atendendo às relações entre os erros de paralaxe num ponto arbitrário e a paralaxe horizontal, se reduz a
sinψ=sinσH(sinζAcosσA+sinζAcosσA)
Como os erros de paralaxe são muito pequenos, tem-se cosσA1 e cosσA1 e, portanto,
sinσH=sinψsinζA+sinζA
de onde se pode extrair o valor da paralaxe horizontal. O método apresentado para a determinação da paralaxe requer a determinação da diferença de latitude de dois lugares situados no mesmo meridiano, isto é, à mesma longitude e a utilização de instrumentos diferentes. É claro que, na determinação da diferença de latitudes é importante considerar a altura de uma estrela que se possa considerar situada no infinito, ao invés do método expostos atrás sujeito ao erro inerente à paralaxe solar.

Um método alternativo para a determinação da paralaxe que recorre à utilização do mesmo telescópio descreve-se do seguinte modo. Seja A o astro, situado à distância D do qual se pretende obter o valor da paralaxe horizontal, isto é, do ângulo σH tal que
sinσH=RD
Trace-se, sobre uma lâmina de vidro situada no foco comum da objectiva e ocular de um telescópio, duas linhas perpendiculares entre si e alinhe-se a imagem de uma delas com a trajectória definida pelo astro A no seu movimento diário. O mesmo efeito pode ser obtido com um micrómetro filar. Num determinado instante, dispõe-se o telescópio de modo a que a intersecção das duas linhas traçadas na ocular esteja sobre o astro A. Encontre-se uma estrela E que poderá ser considerada a uma distância infinita e que se encontre sobre a linha vertical, alinhada com A. No final de aproximadamente seis horas, alinhe-se novamente o telescópio com o astro A. Devido à paralaxe, a estrela E encontrar-se-á agora desalinhada com A. Mede-se o tempo que E leva até se encontrar alinhada com a recta vertical traçada na ocular. A fracção do tempo de alinhamento de E relativamente ao tempo medido entre duas passagens de E sobre o meridiano proporciona o ângulo α como fracção equivalente da volta completa.

Suponha-se que o astro é observado no plano do equador em K a π/2 radianos medidos a partir do meridiano.

Suponha-se que a estrela que pode ser considerada à distância infinita é observada sobre a linha traçada na lâmina do telescópio, perpendicular à direcção do seu movimento, no instante em que o astro se encontra em K. A projecção da posição da estrela no plano do equador é dada pelo ponto E na mesma direcção em que o ponto K é observado a partir do ponto B.

Ao fim de um determinado intervalo de tempo t, a posição do astro é determinada pelo observador em B no ponto T situado no meridiano. A estrela será, portanto, observada em  Fde modo a que sejam iguais os ângulos KPT e EPF. Ao fim do instante adicional δt a estrela encontrar-se-á sobre o meridiano. Se T for o tempo decorrido entre duas passagens consecutivas da estrela pelo meridiano, tem-se

FBZ=2πδtT

Mas como ZPF=KPE e, dado que a estrela é considerada a uma distância infinita, PE é paralelo a BE, seguindo-se que KPE=BKP. A medição do tempo de transição  permite determinar o ângulo

σH=BKP

que proporciona a paralaxe horizontal, uma vez que

sinσH=RD

Se o alinhamento do astro com a estrela se desse quando este se encontrasse no ponto Y, o mesmo mecanismo permitiria determinar o ângulo σY=BYP, de onde se obteria a paralaxe horizontal por intermédio da relação

sinσY=sinσHsinα

onde α=TBY, que resulta da aplicação da lei dos senos ao triângulo BYP.

Supondo que o observador se encontra em A num lugar à superfície da Terra com latitude φ e observa o astro em G, situado sobre o equador, de modo que PAG seja um ângulo recto.


Suponha-se que, apontando o telescópio para o astro em G, se observa a estrela sobre a linha horária traçada no foco comum do telescópio. A estrela encontra-se, portanto, no plano EBF. O astro encontrar-se-á em H, sobre o meridiano, ao fim do tempo t. Após um intervalo de tempo δt, a estrela estará a cruzar a linha horária do telescópio quando este se encontra apontado para H, isto é, a estrela estará alinhada com a posição do zénite em termos de ascensão recta. O valor do arco percorrido durante o interval δt proporciona o ângulo FPG onde F corresponde à projecção do ponto E sobre o plano do equador. Porém, FPG=PGB dado que a estrela se encontra a uma distância infinita, sendo paralelas as rectas BF e PF. Aqui, B corresponde à projecção de A sobre o plano do equador.
Fazendo σ0=PGB, tem-se
sinσ0=PBPG=RcosφD=sinφHcosφ
Se o astro se encontrar a uma declinação δ, então o mesmo mecanismo permite determinar
sinσ0=sinσHcosφcosδ
já que PG=Dcosδ neste caso.
Na prática, convém usar uma forma mais geral do método descrito para a determinação da paralaxe horizontal. Suponha-se que o astro é observado em K e, no mesmo instante, a estrela é observada em E cujas projecções no equador são dadas respectivamente pelos pontos M e F.
Se R for a projecção do lugar Q à superfície da Terra no plano do equador, a estrela será observada na linha horária associada ao astro em K quando a sua projecção sobre o equador se encontrar em A, alinhada com M quando vista do ponto R.
O tempo δt1 que a estrela leva até cruzar a linha horária do telescópio associada à posição de K permite determinar o ângulo FPA. Ao fim de um intervalo de tempo t1, o astro encontra-se em L e a sua projecção sobre o equador, em N. A projecção da estrela sobre o equador, partindo de A leva o mesmo intervalo de tempo t1 até chegar a G. O intervalo de tempo que a estrela leva até se encontrar alinhada com a linha horária associada ao astro em L permite determinar o valor do ângulo GPB que corresponde à paralaxe.
Assim, alinhando o telescópio com o astro em L, mede-se o intervalo de tempo δt2 que leva até à estrela cruzar a linha horária que lhe está associada. O intervalo de tempo δt2 permite determinar o ângulo
2πTδt2=FPA+GPB
onde T é o tempo que leva entre duas passagens consecutivas da estrela sobre o meridiano. A paralaxe σ assim determinada vem dada por
σ=GPB=2πT(δt2δt1)
Note-se que poderá ser necessária a determinação da variação do ângulo horário entre a estrela e o planeta ao longo de um intervalo de tempo suficientemente grande de modo a determinar a correcção média a ser aplicada à paralaxe determinada de modo a contemplar o seu movimento de translação.
Determinam-se os ângulos α1=API e α2=BPI, medindo o tempo de transição da estrela entre os instantes em que cruza as respectivas linhas horárias e a sua passagem pelo meridiano. Ora, APM=GPN uma vez que os lados de um dos ângulos se obtêm dos lados do outro por intermédio da mesma rotação. Por seu turno, APM=PMR já que os lados PA e RA podem ser considerados como sendo paralelos entre si. Do mesmo modo, BPN=PNR. Usando a notação σ1=PMR e σ2=PNR, tem-se
σ=σ1σ2
Por outro lado, como os lados RA e PA podem ser considerados como sendo paralelos, pode-se concluir que α1=ARI. Do mesmo modo, α2=BRI. A lei dos senos aplicada aos triângulos PMR e PNR resulta nas equações
sinσ1sinα1=sinσ2sinα2=RcosφDcosδ=sinσHcosφcosδ
Também
sinσ=sinσ1cosσ2sinσ2cosσ1sinσHcosφcosδ(sinα1sinα2)
dado que os valores das paralaxes são ínfimos. Tem-se, finalmente, para a paralaxe horizontal,
σH=cosδcosφ(sinα1sinα2)

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